Diz a lenda que os elefantes mantêm uma espécie de santuário, um local sossegado para o qual se dirigem antes de morrer. Há várias teorias para a origem do mito. De acordo com os estudiosos, quando os trombudos envelhecem, seus dentes ficam muito sensíveis e, assim, eles têm dificuldade de comer sua alimentação habitual, formada por arbustos, folhas e cascas de árvores. Por isso, os animais buscam regiões pantanosas, onde há abundância de água e as folhagens são mais macias. Invariavelmente, eles acabam ficando por lá até a morte.
Verdade ou não o que conta o folclore, como os velhos paquidermes, também sinto, hoje, um desejo quase incontido de recolher-me às origens. Não que me atinjam todos os males que molestam os gigantescos animais em idade avançada, ainda não, mas tem coisas que para mim, ultimamente, perderam o sentido e o sabor.
Copacabana e suas cercanias, por exemplo, já não me empolgam como antes, ao contrário, chegam a incomodar-me os hábitos e modismos daqui aos quais, de verdade, nunca me acostumara de verdade. Ademais, filhos e netos decolaram como é natural. O mundo em que eles vivem hoje é outro. Nele não há para mim o espaço de antes. Nós os ensinamos a voar, mas não podemos voar com eles.
Não encontro mais o velho prazer nos restaurantes que ela e eu frequentávamos. As ruas e praças do bairro, por onde tanto caminhamos empobreceram, se tornaram feias, cada vez mais tomadas por uma legião de desamparados e me constrangem demais. Nem o incomparável réveillon do bairro consegue me atrair como antes. Enfim, “El ritmo de la vida me parece mal!”.
Voltar às origens, então, para mim, significaria regressar ao velho e bom subúrbio, mas não o de hoje, falo do que abrigou minha infância e juventude. Só em sonho como se vê, mas é para lá que gostaria de ir. Ao Realengo, Moça Bonita, hoje Padre Miguel, e ao Bangu mágico de então.
No Realengo dos primeiros anos de vida e juventude desejaria estar com os amigos dos folguedos de rua, reviver nossos memoráveis natais, as passagens de ano, as noites frias das festas juninas com suas fogueiras, fogos, balões e lindas canções, os longos passeios de bicicleta pelas ruas escuras, mas tranquilas. Reconstruir o exato lugar onde ainda muito jovem conheci aquela por quem me apaixonei perdidamente e para sempre. Vestir outra vez a camisa do invicto Brasileirinho, das peladas nas tardes de sábado, e repetir a emoção de calçar a primeira chuteira quando ainda sem completar meus doze anos.
Queria poder rever meus bons pais e os dos meus pequenos amigos, à beira do gramado do “campinho” da Praça dos Cadetes, ou nas muitas excursões, vibrando com nossas vitórias e consolando-nos nas raras derrotas. Preciso pensar-me, naqueles anos, desfilando no saudoso Beijoqueiro, bloco de sujo dos antigos carnavais, no emblemático espaço do “Coletivo”, fantasiado de índios, sob aplausos do público, cantando o singelo enredo do ano, “Moreninha vem cá”, composição da mais tarde sambista afamada Lecy Brandão. Ninguém poderia querer mais.
Como gostaria de refazer o longo trajeto a pé de casa e até ao Campo do Bangu, em Guilherme da Silveira, a meninada alegre e solta, para torcer pela arrebatadora “seleção” banguense do início dos anos cinquenta, então patrocinada pelo inesquecível Silveirinha, o dono da Fábrica de Tecidos. Lá estavam craques como Zizinho, Ubirajara, Gualter, Nívio, Mirim, Moacyr Bueno e Menezes. Inesquecíveis tardes de domingo.
Quem poderia supor que alguns anos depois aquele local entraria definitiva e profundamente na minha vida. Não podia nem de longe supor que minha parceira querida, àquela época menina, rondava por ali e poucos anos depois, também ali, viveria seu sonho de cinderela. Não, hoje não tenho dúvidas, meu time de coração desde sempre foi o Bangu AC. Bem mais que o Fluminense, meus filhos e netos que me perdoem não ter revelado antes.
Parado na esquina da Júlio Cesar, finalmente, gostaria, uma vez mais, de contemplar toda a extensão daquela rua, até o seu final, já no início da serra, onde minha namorada passou sua infância modesta. Mas ali, ainda assim, e por isso mesmo, foi imensamente feliz. Foi lá que ela cresceu, se tornou bela e viveu seus dias de princesa.
Não tenho dúvidas, hoje sou como os velhos elefantes, pena que só nos meus sonhos.
Texto por: Gen. Div. Gilberto Rodrigues Pimentel, Ex-presidente do Clube Militar




